Não há um fim à vista na guerra de Israel contra o Hamas na Faixa de Gaza

Não há um fim à vista na guerra de Israel contra o Hamas na Faixa de Gaza

Desafios existenciais e objetivos ambiciosos, praticamente inalcançáveis, tanto de israelenses quanto do grupo militante apontam para um longo conflito

O conflito de Israel com o Hamas deverá ser longo, com ambos os lados lutando para alcançar seus objetivos fundamentais e sem um caminho claro para qualquer tipo de paz duradoura.

Israel jurou destruir o Hamas enquanto força militar e política significativa. O Hamas está empenhado no objetivo de varrer do mapa o Estado israelense no longo prazo. As posturas irreconciliáveis são existenciais para ambos. E isso significa que mesmo que um cessar-fogo interrompa a atual rodada de combates em Gaza, a luta entre Israel e o Hamas continuará.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, já disse repetidas vezes que seu país continuará com a guerra em Gaza até conseguir a destruição completa do Hamas. “Não há substituto para uma vitória total sobre nossos inimigos”, disse ele na quinta-feira, próxima passada.

O progresso limitado dos militares israelenses até agora em eliminar o Hamas no enclave semeia cada vez mais dúvidas em Israel sobre a possibilidade de o objetivo declarado por Netanyahu ser alcançado num futuro próximo.

Isso intensifica a pressão internacional por um cessar-fogo prolongado que possa permitir a libertação de mais de 100 reféns  israelenses ainda mantidos pelo Hamas em Gaza, bem como por um aumento das entregas de ajuda humanitária para a população civil da Faixa de Gaza.

Os termos de um cessar-fogo exigidos por Israel e o Hamas continuam muito distantes e um acordo é incerto. O mesmo pode ser dito sobre se um cessar-fogo prolongado representaria o fim da guerra ou só uma pausa no conflito.

Se não houver um cessar-fogo, autoridades israelenses afirmam que os militares deverão combater o Hamas na Faixa de Gaza por muitos meses. Ontem, uma autoridade de inteligência disse que Israel ainda está a muitos meses de alcançar seus objetivos, que incluem capturar ou destruir munições e armas, e tornar inoperantes as bases militares e túneis do Hamas. Conseguir isso levará todo o ano de 2024, talvez mais, disse ele.

Nesse ponto, Israel enfrentaria um dilema. Se as forças israelenses mantiverem uma ocupação prolongada na Faixa de Gaza – o que Netanyahu disse que não acontecerá -, elas se tornarão alvo de uma insurgência prolongada dos militantes palestinos.

Se Israel deixar Gaza rapidamente, o Hamas poderá se regenerar e retornar como força controladora de fato do enclave. Impedir tal resultado exigiria uma nova entidade governamental, introduzida rapidamente com o apoio da população palestina da Faixa de Gaza, assim como de Israel e de participante externos. Esse cenário parece distante.

Nas últimas décadas, os exércitos de países do G-7 (grupo das sete maiores economias ricas) têm lutado para suprimir totalmente forças insurgentes com uma fração de seus recursos. Mais recentemente, os EUA e seus aliados ocidentais fracassaram em suprimir o Talibã e criar uma alternativa de governo estável no Afeganistão, apesar de 20 anos de tentativas.

Analistas afirmam que o Hamas tem algumas vantagens na Faixa de Gaza que outros grupos militantes nos últimos tempos não têm. “O Hamas desfrutou de um alto grau de independência por quase 20 anos para desenvolver seus recursos em um território altamente definido e com uma população que estava totalmente sob seu controle”, diz Ofer Fridman, acadêmico especializado em estudos sobre a guerra do King’s College London.

A menos que a população de Gaza seja arrasada ou expulsa, é muito provável que o Hamas venha a sobreviver”

— Hussein Ibish

O Hamas se preparou para a guerra com Israel sabendo exatamente onde os combates aconteceriam, e que ele poderia usar sua rede de túneis e também seu poder para controlar e coagir a população do enclave em seu benefício, diz Fridman. “Tudo isso torna o objetivo [de destruir o Hamas] mais difícil do ponto de vista militar”, acrescenta ele.

Outros especialistas concordam que o objetivo central de Israel na guerra será difícil de ser alcançado no curto prazo, mesmo que as forças israelenses conquistem toda a superfície da Faixa de Gaza.

“A menos que a população de Gaza seja arrasada ou expulsa, é muito provável que o Hamas venha a sobreviver de uma maneira ou de outra”, diz Hussein Ibish, do Arab Gulf States Institute, um think-tank de Washington.

“Se o Hamas fosse uma lista de indivíduos ou equipamentos, poderia ser destruído”, diz Ibish. Mas o Hamas é uma marca política que pode substituir seus combatentes e líderes e se reconstituir, acrescenta ele.

O objetivo de longo prazo do grupo islâmico, de substituir Israel por um Estado palestino abrangendo as terras entre o rio Jordão e o Mar Mediterrâneo parece ainda mais absurdo. O próprio Hamas admitiu isso tacitamente quando reviu seu estatuto em 2017, abandonando seu apelo aberto à destruição de Israel, exigindo em vez disso um Estado palestino na Cisjordânia e na Faixa de Gaza.

Mas o principal líder do Hamas no enclave e mentor do ataque de 7 de outubro contra Israel, Yahya Sinwar, disse que um acordo sobre a coexistência dos dois Estados ao longo das fronteiras de 1967 não seria mais a solução histórica definitiva. Em vez disso, disse Sinwar, esse seria um estágio intermediário, que duraria talvez uma geração ou mais, mas que eventualmente abriria caminho para um Estado palestino que abrangesse todo o território.

Para Sinwar, a luta armada contra Israel visa fortalecer a posição de barganha dos palestinos em negociações futuras, mantendo ao mesmo tempo o Hamas como líder da causa nacional palestina.

Para a maioria dos israelenses, porém, o horror do ataque de 7 de outubro destruiu qualquer crença de que o Hamas possa se tornar um ator pragmático aberto a uma resolução do conflito Israel-Palestina. “Basicamente, eles não estão em busca de um acordo conosco, eles querem nos expulsar”, diz Eyal Hulata, ex-chefe do Conselho de Segurança Nacional de Israel. “E se eles precisarem massacrar todos nós por isso, eles o farão.”

Hulata diz esperar que figuras mais pragmáticas possam surgir e tomar o controle do Hamas se a atual liderança em torno de Sinwar puder ser eliminada. Até agora, as forças israelenses não conseguiram encontrar ou matar os principais líderes do Hamas na Faixa de Gaza

O Hamas, que se estimava ter um exército de cerca de 35 mil militantes e vários milhares de foguetes antes da guerra, é fraco demais para ameaçar a existência do Estado de Israel, que continua sendo a maior potência militar do Oriente Médio.

Mas uma luta mais ampla contra o Hamas e outros grupos que se opõem a Israel, incluindo o Hezbollah no Líbano e o regime islâmico do Irã que os apoia, são uma ameaça existencial a Israel porque seus arsenais e objetivos radicais ameaçam a capacidade do Estado israelense de oferecer um modo de vida seguro à sua população

Essa visão reforça a determinação de Israel de manter uma longa luta contra o Hamas e outros inimigos, mesmo a um custo elevado em termos de baixas e danos econômicos. Em um país ainda traumatizado pela brutalidade do ataque de 7 de outubro, uma clara maioria da população continua apoiando a guerra na Faixa de Gaza, mesmo com o aumento dos temores de que ela possa se tornar um atoleiro.

No dia 22, Israel teve o dia mais mortal desde que a invasão começou: 24 soldados morreram, incluindo 21 quando dois prédios ruíram sobre eles. O incidente elevou o número de mortes entre os soldados israelenses em Gaza para pelo menos 221, representando cerca de 10% do número total de soldados israelenses mortos na Faixa de Gaza.

O Hamas matou cerca de 1.200 pessoas, a maioria civis, em seu ataque de 7 de outubro no sul de Israel. Mais de 26 mil pessoas, a maioria mulheres e crianças, foram mortas na Faixa de Gaza desde o início dos bombardeios por Israel e sua posterior invasão, segundo as autoridades palestinas. Esse número não faz distinção entre combatentes e civis.

As forças israelenses infligiram baixas significativas ao exército do Hamas. Mas agências de inteligência dos EUA duvidam da informação de Israel de que matou 9 mil militantes e acreditam que Israel continua bem distante de seu objetivo de esmagar as forças militares do Hamas.

Na segunda-feira, o ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant, disse que “25% dos terroristas do Hamas foram mortos e pelo menos outros 25% ficaram feridos”.

Apesar das vitórias táticas israelenses contra o Hamas na Cidade de Gaza, em Khan Younis e outras partes da Faixa de Gaza, os combatentes do grupo estão se revelando mais difíceis de eliminar do que Israel esperava quando lançou sua invasão em outubro.

O bombardeio aéreo intensivo na parte norte da Faixa de Gaza destruiu grandes áreas urbanas, matou milhares de civis e desalojou a maior parte da população. Israel diz que desmantelou os batalhões do Hamas no norte enquanto unidades militares organizadas.

Bolsões de resistência persistem na Cidade de Gaza e outras parte do norte. Pequenos grupos de combatentes do Hamas continuam emboscando as tropas israelenses, usando sua elaborada rede de túneis para se movimentar e esconder. Para frustração dos israelenses, eles também continuam disparando foguetes contra Israel, embora esporadicamente.

Quando Israel começou a retirar suas brigadas militares do norte da Faixa de Gaza, o Hamas começou a ressurgir na área. No sul do enclave, a missão militar israelense está ainda mais difícil porque quase dois milhões de civis desalojados estão amontoados nessa parte da Faixa de Gaza.

O que complica o esforço de Israel em Gaza é a enorme escala da rede de túneis do Hamas. As forças israelenses estão tendo dificuldades para eliminar de fato o Hamas de todas as áreas urbanas que elas destruíram. Os túneis estão se mostrando tão numerosos, longos e intrincados que os melhores esforços de Israel para explodi-los, inundá-los ou lutar neles até agora não obtiveram mais do que progressos parciais.

É improvável que até mesmo a eventual morte de Sinwar ou outros líderes do Hamas na Faixa de Gaza elimine o grupo como ameaça militar, porque ele tem uma estrutura de poder difusa, que não se concentra em nenhum indivíduo, explica Tahani Mustafa, analista sênior do think tank International Crisis Group.

Assassinatos anteriores, como a morte recente do vice-líder político do Hamas Saleh al-Arouri em Beirute, no Líbano, não conseguiram interromper as operações do grupo e o Hamas está emergindo politicamente mais forte entre os palestinos como resultado do conflito, afirma ela.

Mustafa diz que o Hamas não define a vitória em termos militares, e sim em termos de consequências diplomáticas e políticas da guerra. “E nesse sentido, acho que o Hamas está se saindo muito bem”, afirma ela. (Com Bloomberg – Tradução de Mario Zamarian)

FONTE: Valor Globo, Janeiro/2024.

mais novidades