Mercado ainda vê espaço para IPCA e juros menores

Mercado ainda vê espaço para IPCA e juros menores

Nas últimas semanas, aumentou entre os participantes do mercado a sensação de que a inflação pode encerrar este ano em níveis ainda mais baixos, o que já começa a se refletir nos preços dos ativos. Como consequência, também têm crescido as apostas em um ciclo mais extenso de redução da taxa Selic, que poderia cair abaixo de 9% ao ano já em 2024. Os juros básicos estão hoje em 11,25%.

O fenômeno foi reconhecido pelo próprio presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, em comunicações recentes. Ele destacou a queda das taxas de inflação “implícita”, ou seja, extraída dos DAPs, os contratos futuros de cupom de IPCA, um derivativo que serve como aposta para o nível da inflação em determinado período.

A expectativa de inflação para o fim deste ano saiu de 3,98% no fim de 2023 e tocou os 3,46% nas mínimas do ano. Por ser um ativo de risco, é natural que o mercado exija um prêmio, que já está embutido nesse número. Assim, ao se imaginar o DAP sem essa “gordura”, a sensação entre os agentes é de uma inflação bem próxima da meta e abaixo das projeções do próprio boletim Focus (3,82%).

“A inflação, de fato, parece bem controlada. O número de janeiro parece contaminado por serviços financeiros, que não têm muito a ver com o mercado de trabalho. Na nossa projeção, acreditamos em uma volta desse componente. Tirando isso, todo o restante dos preços de serviços parece mais comportado”, diz Gustavo Pessoa, sócio e gestor de renda fixa da Legacy Capital.

Os motivos para a visão benigna do mercado em relação à inflação vêm se multiplicando. Os investidores têm atribuído um viés de baixa nos preços mais voláteis, como os de passagens aéreas e gasolina e há, ainda, uma avaliação de que o fenômeno climático El Niño, que gerava preocupação especialmente para a inflação de alimentos, pode terminar antes do esperado e, assim, ter efeitos mais contidos na inflação neste ano. Outro ponto que começa a entrar no radar dos agentes é a chance de uma mudança na cobrança do ICMS sobre tarifas de distribuição de energia, tema cujo julgamento está em pauta no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e que pode retirar cerca de 0,4 ponto percentual do IPCA neste ano.

Ainda, a possibilidade de haver uma surpresa para baixo na inflação, diante das discussões sobre a saúde da economia chinesa e de possíveis impactos nos preços das commodities, que poderiam levar a inflação para algo ao redor de 3%. “Quem sabe a Selic vai para 8%…”, diz. “Uma das maiores convicções é a de que os juros vão continuar caindo. O mercado precifica uma Selic de 9,5% e a assimetria está para baixo”, afirma. Nesse sentido, Fernandes avalia que a XP Asset deve aumentar posições aplicadas em juros nominais e reais no Brasil.

Fonte: Valor, Fevereiro/2024.

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