Governo quer depreciação acelerada, mas pode diluir medida por espaço fiscal

Governo quer depreciação acelerada, mas pode diluir medida por espaço fiscal

MDIC prefere política de alcance mais amplo, que dê estímulo maior ao investimento no curto prazo

O governo está decidido a adotar a política de depreciação “super acelerada” de bens de capital e a questão é definir o espaço fiscal para o programa, segundo afirmou o secretário de Desenvolvimento Industrial do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Uallace Moreira. Ele explicou que o tamanho da renúncia fiscal para 2024 vai ser determinante para o alcance da medida, que pode ficar restrita a alguns setores, como indústria de transformação, ou ser de alcance mais amplo entre os diferentes setores, como construção, telecomunicações e utilidades.

Outra possibilidade é diluir a iniciativa em dois anos (2024 e 2025), para torná-la mais ampla consumindo menor espaço orçamentário em um ano-calendário. Essa alternativa tem também diferentes arranjos, como 70% em 2024 e 30% em 2025 ou metade em cada ano, entre outras.

O MDIC, de acordo com o secretário, tem ao menos cinco cenários diferentes para o desenho da política de “super depreciação”, conforme o tamanho da renúncia fiscal a ser aceita pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que trabalha com um intervalo entre R$ 3 bilhões e R$ 15 bilhões de renúncia.

Hoje, a depreciação do maquinário das empresas, para abatimento da base de cálculo do IRPJ/CSLL, varia de 2 a 25 anos. A ideia é que todo esse processo seja considerado em apenas um ano, concentrando todo o benefício tributário em um ou dois anos no máximo. A longo prazo, o impacto fiscal não muda, mas como há uma antecipação do desconto, isso precisa ser incorporado como renúncia no orçamento do ano, após a aprovação da medida provisória ou projeto de lei.

Moreira destaca que o MDIC prefere uma política de alcance mais amplo, que dê um estímulo maior ao investimento no curto prazo. O secretário aponta que o governo está se antecipando a uma dinâmica de ciclo de redução dos juros elevados no Brasil, fomentando um estímulo a modernizar a estrutura produtiva do país.

“Você está elevando a produtividade da empresa por máquinas novas, então sua competitividade não está vindo via subsídio e sim via modernização de sua estrutura produtiva. Estou dinamizando, isso vai gerar emprego, investimento e crescimento econômico”, salientou. “Em um ambiente de redução dos juros, posso gerar um efeito pró-cíclico de crescimento, no qual as empresas que estão antecipando seus investimentos podem ter que investir mais ainda e gerar um ciclo virtuoso de crescimento. Muita gente ainda não tem a dimensão do papel estratégico que esse anúncio tem para dinamizar o crescimento econômico, elevando produtividade do país”, completou.

Segundo ele, o governo está incentivando as empresas a antecipar o ciclo de investimentos em um momento “fundamental” no qual as tecnologias da indústria 4.0 estão se disseminando no mundo, de forma a se integrar nas cadeias globais. “É uma medida extremamente estratégica, importante”, salientou.

Moreira destaca que essa política, junto com outras medidas como a ampliação dos investimentos públicos do PAC, deve ajudar a economia a ter um desempenho melhor nos próximos anos.

O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, aponta que esse tipo de proposta vai contra, nesse momento, o ajuste fiscal que a Fazenda anuncia que quer fazer.

“Claro que modernizar a indústria seria essencial, mas valeria mais pensar em como integrar essa indústria com o resto do mundo. Acordos comerciais que baixem radicalmente tarifas de importação e com a ampliação de países poderia ser um caminho relevante. Claro que com isso teria que vir a reforma tributária e uma adequação melhor na educação. São políticas mais horizontais e gerais que faltam”, comentou.

Segundo ele, ao fazer esses incentivos o governo está pensando em aumentar a eficiência da indústria, mas para ter resultados duradouros é necessário aumentar a produção e a demanda da indústria. “Isso só vai acontecer numa integração industrial mais aprofundada como, por exemplo, a Polônia fez com a Alemanha. O Nordeste poderia se transformar num polo industrial de exportação pela proximidade de EUA e Europa, mas se houvesse essa visão mais integrada em avançar nesses três pontos: abertura comercial, tributária, educação. Se não, modernizamos a indústria mas ela vai continuar tendo dificuldade de ganhar mercados lá fora”, explicou.

Seria bom o governo levar em conta os alertas de Vale. Por mais meritória que seja uma política, e a depreciação acelerada de fato se encaixa nisso, é preciso ter clareza dos limites fiscais existentes (Haddad tem mostrado um quase desespero em arrumar receitas para o orçamento do próximo ano) e da necessidade de se integrar com outras políticas mais estratégicas em um mundo bastante integrado e do qual o Brasil segue com dificuldades de se encaixar nas cadeias produtivas.

De qualquer forma, se feita com cuidado, a medida pode de fato ajudar o país a acelerar seu crescimento de uma maneira mais saudável, com maior produtividade sobretudo da combalida indústria local.

Fonte: Site JOTA, Julho/2023.

mais novidades