COPOM DEVE CORTAR SELIC A 10,75% NESTA SEMANA

COPOM DEVE CORTAR SELIC A 10,75% NESTA SEMANA

Redução de 0,5 ponto é unânime no mercado, que projeta taxa a 9% no fim do ano.

O mercado aguarda com ansiedade a decisão desta semana do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC). Diferentemente de janeiro, quando não houve surpresas, a decisão da próxima quarta-feira tende a ser acompanhada de perto pelos agentes. No momento em que o colegiado ainda defende a necessidade de uma postura contracionista para combater as pressões inflacionárias, o debate sobre o nível de restrição adequado ganha força no mercado, o que eleva a ansiedade pela comunicação do Copom.

O Valor ouviu 135 instituições financeiras e consultorias e é unânime a expectativa de uma redução de 0,5 ponto percentual na Selic nesta semana, que passaria de 11,25% para 10,75% ao ano. Já em relação a prazos mais longos, a mediana das estimativas indica o juro básico em 9% no fim deste ano e em 8,5% em dezembro de 2025.

Apesar das expectativas centrais paradas, o contexto no qual se insere a reunião do Copom desta semana aponta para um ambiente macroeconômico mais complexo. Desde a reunião de janeiro, houve surpresas altistas relevantes na atividade econômica; a inflação corrente foi bem mais alta que o esperado pelo mercado – e pelo próprio Banco Central – nos  últimos meses e com pressão no lado dos serviços; e o mercado voltou a adiar a expectativa para o início dos cortes de juros nos Estados Unidos.

No acompanhamento feito pelo Valor com as projeções das casas para a Selic no fim do ciclo, 16 instituições elevaram suas estimativas para cima desde janeiro. Houve alguns casos com revisões mais tímidas, como Itaú Unibanco e Quantitas, que elevaram as previsões em apenas 0,25 ponto percentual. Algumas casas, porém, fizeram ajustes mais intensos, como Genoa Capital (de 8,5% para 9,25%) e Opportunity (de 8,25% para 9%).

Por outro lado, 20 casas reduziram suas projeções para a taxa de juros no fim do ano – em geral, instituições que projetavam em seus cenários uma política monetária mais restritiva no fim do ciclo e que agora se aproximam do consenso de mercado. Foram os casos da Ativa Investimentos (de 10,5% para 9,5%); do Morgan Stanley (de 10% para 9%); e da MCM Consultores (de 10% para 9,5%).

“Há uma sequência de dados que vai na direção de uma atividade mais forte, com um mercado de trabalho que está mais aquecido, com desemprego baixo e salários aumentando. Os dados recentes colocam um viés altista na nossa projeção de crescimento deste ano, que é de 1,7%”, diz o economista-chefe da Santander Asset Management, Eduardo Jarra. “No entanto, não vimos um evento conjuntural que force o Copom a mudar a comunicação.”

A gestora de fundos do Santander reduziu sua estimativa para a Selic no fim deste ano de 9,5% para 8,5% na virada do mês. “Nós estávamos esperando ter um grau de confiança maior no processo de desinflação”, diz Jarra, ao projetar o IPCA em 3,6% no fim deste ano. “Existe um ganho de o BC ir devagar, passo a passo, em um ritmo prudente. Dá para esticar um pouco mais”, afirma o economista.

Com a leitura de que a inflação deve ceder; de que as medidas de núcleo continuarão em um processo gradual de desinflação; e de que não houve mudanças relevantes nem no cenário externo e nem nas informações a respeito da condução da política fiscal pela ótica do Banco Central, Jarra acredita que o grande interesse da reunião desta semana estará concentrado no “forward guidance” (prescrição futura) que o colegiado tem usado para guiar os agentes econômicos em relação aos próximos passos nos juros.

Desde o início do ciclo, em agosto de 2023, o Copom indica, no comunicado, que seus membros “anteveem redução de mesma magnitude nas próximas reuniões e avaliam que esse é o ritmo apropriado para manter a política monetária contracionista necessária para o processo desinflacionário”. Caso esse apontamento seja mantido agora, o mercado entenderia  que a Selic deve cair para, pelo menos, 9,75%. No entanto, se o “guidance” for tirado ou amenizado, o colegiado passaria uma mensagem mais “hawkish” (conservadora).

“Esse assunto apareceu bastante no período entre as reuniões e, pelas discussões que vimos dos dirigentes do BC, esse assunto será debatido. É certo que haverá uma discussão na reunião, mas minha convicção é baixa sobre o que acontecerá, se irão manter o plural ou adotar o singular. Nenhum desses cenários irá me surpreender”, afirma Jarra.

FONTE: Valor Globo, Março/2024.

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